Na estrada pela Guatemala #14

De Tikal tínhamos que seguir para Antigua. sábado era dia de casamento. E já era quinta-feira. Não eram muitos quilómetros, 500. Tínhamos lido umas histórias recentes de estradas bloqueadas. As pessoas bloqueiam as estradas em protesto contra o governo corrupto e pode ficar bloqueada durante horas. Pensamos que devíamos fazer tudo num dia. Pensamos mal.

Existem duas hipóteses de estradas que ligam Tikal à Cidade da Guatemala e consequentemente a Antigua. Uma das hipóteses, apesar de mais curta demora mais tempo. Vemos logo que só pode ser estrada em más condições. Olhamos atentamente para o iOverlander, que já falamos aqui e vemos que tem imensos sinais de exclamação. O que quer dizer perigo, pessoas que foram roubadas, estradas em péssimas condições.
Decidimos ir pela segunda hipótese. É uma estrada recente que o governo fez exatamente para ligar Tikal à Cidade da Guatemala e promover o turismo.
A estrada de apenas uma faixa em mais de 80% do percurso está repleta de camiões, que fazem o mesmo trajeto que nós. Já que também é possível chegar às Honduras. Pelo caminho, pequenas aldeias que vivem mesmo da estrada e das pessoas que param para almoçar, ou comprar qualquer coisa.
Deixamos os topes do México pelas lombas da Guatemala. Menos mas chamam-se “túmulos”. Imaginem, portanto, o tamanho.
É impossível ultrapassar os camiões. Passaram 7 horas e fizemos 300 quilómetros. Saímos ainda não eram 7 da manhã. Paramos para almoçar com esperança de que faltava pouco. Até agora nenhum bloqueio. Fomos parados pela polícia apenas para controlo do passaporte. Vamos por uma estrada com duas faixas finalmente. Comentamos, uau que estrada. E o resto já imaginam. Como dizia uma professora minha “coisa gabada, coisa estragada”. Demoramos mais 4 horas para fazer 12 quilómetros, já era de noite. Tivemos que dormir numa bomba de gasolina e seguir viagem para Antigua já no dia seguinte. Passamos pelo meio da Cidade da Guatemala, a capital do país. E nem, o facto de termos saído às 6 da manhã nos poupou a mais 3 horas para fazer 75 kms.

Compensou Antigua que é mágico. Mas nisso falaremos noutra altura

Na estrada pela fronteira Guatemala #13

Muito lemos sobre as fronteiras, e sabíamos que a América central tinha algumas das piores. Neste caso, ao passar do Belize para a Guatemala demoramos três horas, mas muito por nossa culpa.

Para sair do Belize tivemos que estacionar o carro, carimbar o passaporte, pagar uma taxa de quase 20 dólares por pessoa e dar também saída do carro. Foi fácil, nem quiseram ver o carro. Estava a jogar Portugal, a ganhar 2-0 e eles ficaram tão contentes por sermos portugueses que carimbaram e nem olharam. Mas ficamos com pouco dinheiro, trocamos para Quetzales, moeda oficial da Guatemala, e ficamos com 80, perto de 8 euros. Sabíamos que íamos estar tramados.

Depois passamos só por um guarda e já estamos na Guatemala. Começam logo a correr em direção ao carro uns 10 miúdos. Tivemos que fumigar o carro, uma vez mais. Já explicamos o que isso é aqui. Pagamos e vem logo o veterinário para ver a Duna. Entregamos os papéis, pede-nos cópias. Dizemos que não temos. Fica chateado mas lá cede a scanear ele os documentos, enquanto vamos pagar 25 quetzales. O nosso dinheiro ainda dava. carimbamos o passaporte, e depois passamos para os papéis do carro. Precisamos de cópias. Não temos. Tudo isto enquanto somos seguidos pelo Daniel.

O Daniel não deve ter mais de 12 anos. Diz que nos está a ajudar, que vai connosco tirar cópias. Agradecemos, dizemos que não lhe podemos dar dinheiro nenhum. Ele não desiste. Leva-nos a tirar cópias. Chegamos ao local, não há luz, não podem tirar. Diz que na vila dá. Mas temos que ir a pé, são 20 minutos, não queremos deixar a Duna. Voltamos ao veterinário, ele oferece-se para nos tirar cópias para os papéis do carro e ainda nos dá umas dicas sobre Guatemala. Entretanto o Daniel desaparece. Voltamos ao balcão com as cópias, dão-nos um papel para pagar 160 quetzales. Pronto, já não temos dinheiro. Tentamos pagar com cartão. Não dá. Temos que ir à vila levantar. Perguntamos onde é, explicam-nos. O Daniel aparece como por magia. O Ivo vai levantar o dinheiro, sempre com o Daniel a acompanhar e a contar-nos histórias. Diz que tem 16 anos, idade legal para trabalhar supomos. Que tem que pagar para estar alí e que se não fizer dinheiro nenhum tem que pedir à mãe. Perguntamos quanto pode fazer num dia. Não nos diz, pergunta-nos quanto é que ganhamos nós por dia em Portugal.

O Ivo regressa, e vou eu pagar e buscar os documentos. Uma vez mais seguida do Daniel. Damos-lhe umas moedas do Canadá, tiramos-lhe uma foto com Fujifilm Instax, que lhe oferecemos e ele fica radiante.
Seguimos viagem, o destino é uma vila antes de Tikal. Está-se mesmo a ver que já vamos chegar de noite.

 

Na estrada pela fronteira #12 Belize

Depois do casamento que tivemos no México era hora de seguir para o Belize.
Tínhamos feito o seguro para um mês e a realidade é que já se tinha acabado há um dia.
Sair do México foi fácil, carimbar passaportes, ir buscar a nossa caução do carro e seguir viagem.
Na terra de ninguém tivemos que fumigar o mamute. Para quem não sabe o que é fumigar, como eu não sabia, passam um spray no carro que supostamente mata bichos e insetos que possam estar alojados nele.
Seguimos para a entrada do Belize. Aqui a língua oficial é o inglês.

Carimbo no passaporte, levamos a Duna para dar entrada no pais. Já tínhamos feito tudo online por isso foi rápido e apenas tivemos que pagar. Depois o processo com o carro, também bastante simples. Eles pedem para ver o interior do carro mas depois de uns dias de praia e com o casamento não estava nas melhores condições, então o guarda achou que não devia entrar!
Fizemos o seguro para dois dias e prontos para seguir!

Ficamos apenas 2 dias no Belize, porque já tínhamos o casamento agendado na Guatemala. Ficamos com vontade de voltar, o Belize tem um ar caribenho e as pessoas são muito divertidas. Parecia que estávamos naqueles anúncios antigos da Malibu. Acabamos a dormir num camping onde provamos o que seria o melhor batido de ananás do Belize e não ficamos desiludidos.

Fato curioso: dois dólares belizianos compram um dólar americano. Por isso eles aceitam as duas moedas e é fácil fazer a conversão. A flutuação da moeda varia sempre de acordo com o dólar.

Na estrada pelas coloradas #11

Chegamos às Coloradas. Tínhamos visto fotografias e parecia um sonho. Mas nas fotos não mostram os mosquitos. Lagoas cor-de-rosa de um lado e o Mar do outro.

Saíamos do carro e olhávamos para as nossas pernas e lá estavam eles, mais de 5 de uma vez a picar-nos. Vimos mais flamingos e decidimos dormir por ali e partir no dia seguinte para Valladolid já que achamos as praias muito sujas e o cheiro náuseabundo a peixe podre insuportável. A regra número 1 para um overlander é não conduzir de noite. Por isso tínhamos mesmo que dormir ali. Quando falamos com um casal alemão que já ali tinha passado disseram-nos  que foi nas Coloradas que quebraram essa regra e decidiram conduzir de noite.

Nós estávamos  de mau humor com o sítio, e ele mostrou-nos que também pode estar de mau humor com os que o visitam. Continuem a ler.

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Flamingos, Las Coloradas

Para estar mais frescos, já de noite, decidimos aproximar-nos da praia, e enterramos duas rodas. Não havia modo, escavamos uma cratera. Entretanto aproxima-se o António para nos ajudar, não o reconhecemos ao princípio mas é o senhor da loja de ferragens onde tínhamos ido à tarde comprar gasolina para o gerador.

Foi buscar a sua carrinha, puxou e pronto, fizemos pior. Tentou ajudar e foi chamar uns senhores que tinham um trator. Era meia-noite e eles disseram que estavam cansados. Como tínhamos seguro decidimos chamar o reboque, história que já contei aqui. De manhã apareceu de novo o António e foi chamar os senhores do trator para nos tirar dali. Eternamente agradecidos.

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Mamute atolado na areia

Depois de uma noite péssima, horas à conversa com a seguradora, e outras tantas a matar mosquitos,  decidimos ir até a um pequeno hotel para descansar e repor energias. Fomos para Valladolid.

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Waiting for the phone to charge

Era sexta-feira e no domingo já íamos para Cancun. Apesar da peninsula se chamar Yucatán, esta alberga também o estado de Quintana Roo que é onde fica a famosa Riviera Maya. Descansamos mas a intenet é miserável em todo o México e nem lá conseguimos trabalhar.

Na estrada #10 de Puebla ao Sul

Estes 1.000 kms foram diferentes, depois de sair de Puebla íamos ficar em casa da Lily. Comentou-nos que teria outro casal hospedado em casa dela. Para nós desde que desse para estacionar o mamute era perfeito. No dia antes a Lily pergunta-nos onde estamos e digo em Puebla. O casal que ia para lá também estava em Puebla. Iam de autocarro para a casa dela e claro que logo nos oferecemos para os levar. Combinamos cedo, eles estavam com receio de que as suas malas não coubessem na carrinha. A Anne e o Emilio estavam a mudar-se para o México, e iam morar para aquela zona.

São pessoas maravilhosas, com um trabalho incrível e com as quais conversamos durante horas.
A paisagem foi mudando, deixamos as montanhas pela floresta tropical cada vez mais densa.
Na casa de Lily, em Acayucan, não tínhamos rede. Ela é dona de um restaurante, e de uma mercearia. Ficamos lá, horas e horas a conversar e a beber cerveja. A mostrar música portuguesa. A falar do trabalho deste fantástico casal. Podemos dizer que foram os kms da Corona, mas não bebemos e conduzimos. É incrível mas aqui a Corona é ao mesmo preço da água.

Antes de chegar aos 10.000 ainda conseguimos chegar a Villahermosa.  Iríamos  celebrar o dia ou a noite da independência. Estávamos com o Luis e com os seus amigos. Depois de fazer o típico: ir a praça ver o grito, momento em que se grita pelos heróis da independência, se grita Viva Mexico e cantam o hino, admirar o fogo de artifico, fomos para sua casa. Atras na pick-up, mais uma vez. Lá ficamos horas e horas a falar de Portugal, e do México das diferenças e das semelhanças.

Ivo

Hoje o Ivo faz anos, este post é feito à socapa. Sem permissão.
Normalmente leio o post, ele escolhe as fotos, relemos e vemos o resultado final. Mas hoje não. O Ivo odeia que as atenções recaiam sobre ele, por isso nunca me deixaria escrever isto. Acho curioso que faça anos no mesmo dia em que se celebra o dia da água. Já estamos por aqui há 3 meses e ainda não deu para ele fazer surf. Vamos ter que tirar “a barriga de miséria”.

Quando começamos a namorar, eu sempre com muita pressa para viver, queria fazer imensas coisas e estar com ele, ele dizia-me: temos a vida toda para estarmos juntos. Aprendi com ele essa calma, esse gostar devagar, que faz bem. Quando lhe dizia os mil trabalhos que tinha e que ia para o restaurante e não podia ir ao almoço de família ou a uma festa de anos, sempre percebeu. O Ivo não me quer mudar e eu não o quero mudar a ele. É um coração jovem mas com uma alma velha e serena.

Apaixonei-me pelo Ivo desde o primeiro dia que nos conhecemos e estivemos a falar 8 horas seguidas! Apaixonei-me quando o nosso primeiro presente foi um livro de viagens!

Apaixonei-me mais um bocado no momento em que decidimos ficar com a Duna, ele tomou logo conta dela e assim começamos a chamar casa quando estávamos os três. A Duna vê nele o líder, é de rir quando eu lhe digo Duna, busca o Ivo e ela vai a correr buscar o seu brinquedo preferido para lhe levar.

Gosto de como em cada coisa procuramos o lado bom mas de como há dias em que este blog se podia chamar “we hate the world”.
Gosto da nossa alegria de cada vez que entramos no mar. Gosto que esta aventura nos esteja a fazer valorizar as pequenas coisas: um banho, uma cama num quarto com ar condicionado, um jantar cozinhado por nós. Gosto de como podemos falar horas e horas sobre assuntos que outros achariam a coisa mais aborrecida do mundo. E de como nos adaptamos e estamos felizes seja num hotel 5 estrelas no Douro ou num bairro social em Cancun.

Gosto que esteja sempre a tentar superar-se, que nunca se cansa de aprender, de procurar sempre um melhor caminho. E que mesmo assim tenha a humildade de achar que não sabe nada do mundo.

Quem me conhece sabe que tenho uma panca com signos. O Ivo é balança e como tal pesa sempre bem os dois lados, ponderado e justo. Gosto da lealdade dele. Gosto de como precisa de beleza na sua vida.

E depois há aquelas coisas irritantes mas que já não conseguia viver sem elas, como perguntar todos os dias: como está o meu cabelo? Ou demorar 20 minutos a escolher um filme porque temos que ver todas as opções. De ouvir alguém descrever uma doença e de saber que amanhã já vai ter alguns sintomas. De não ser capaz de fazer uma cara decente para as fotografias e obrigar-me a passar horas a escolher as mais aceitáveis, e claro de não ter nenhuma só dele.

Apesar de termos a vida toda para estar juntos, o melhor desta viagem está a ser estar todos os dias com ele!

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Na estrada pelo México #8 e #9

Foram tantos os avisos sobre o México que decidimos passar a “voar” pelo Norte. Estudamos as estradas, os pontos onde podíamos parar e quanto suportaríamos conduzir.

No primeiro dia ficamos em Saltillo, a 3 horas e 30 da fronteira. Passamos ao lado de Monterey e seguimos para Saltillo. Pernoitamos na casa da Cinthia. Uma rapariga que conhecemos pelo Couchsurfing. A Cinthia estuda medicina, mora com os pais, e um tio. O seu tio, muito viajado, esteve em Lisboa e no Porto em 1992, adoramos conversar com ele. A mãe da Cinthia tem um negócio de organizar casamentos em Saltillo. Garanto que só soubemos disto quando chegamos. Fomos jantar com a Cinthia e passeamos pela cidade, não vimos mais nenhum viajante perdido como nós no meio das montanhas. Sentimo-nos seguros. Regressamos a casa e os tios e pais de Cinthia bebiam tequila e jogavam às cartas. Quiseram saber quais os nossos planos para o dia seguinte e recomendaram-nos o melhor percurso. Dormimos e fomos acordados na manhã seguinte pelo sobrinho da Cinthia a pedir para descermos para o pequeno-almoço. Que generosidade. Ovos com batatas, feijão e tortilhas a acompanhar com café acabado de fazer.

Prolongamo-nos na conversa. Como são os casamentos em Saltillo, como é organizar casamentos aí, o que se come,… fomos conhecer o espaço. Um grande salão onde cabem 300 pessoas, uma cozinha pequena e uma sala de entretenimento para os pequenos. Confessa-nos que o pior de tudo é conseguir pessoas para trabalhar. Rimo-nos, há coisas que são iguais em todo o mundo.

Saímos já mais tarde do que queriamos a caminho de Ciudad del Valles, en San Luis Potosí. Vamos ficar aí duas noites e aproveitaremos para conhecer a região a que chamam de Huasteca. Não queremos chegar de noite, são 6 horas a conduzir. Empurramo-nos nas montanhas, deliciamo-nos com os animais a pastar na berma das estradas, vemos kms e kms sem ninguém, passamos por mais de 100 restaurantes de estrada a vender Carne Assada, algumas zonas com 5 seguidos.

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Northern town in Mexico

Paramos para gasóleo, não aceitam cartão, só temos 30 dólares, entre os quais os 20 falsos que nos passaram nos Estados Unidos. Passam. Mais à frente conseguimos levantar e seguimos viagem, por estradas nacionais. Com os limites de velocidade sempre a variar: 100, 80, 60, 110. Temos que ir bem atentos. Seguimos para Sul, o furacão Katia chegava hoje ao país, com chuvas intensas, o céu vai ficando cada vez mais nublado. Paramos noutra bomba e aproximam-se para nos pedir dinheiro, dizemos que não temos. Se fossemos a dar a todos, tínhamos que acabar aqui a viagem. Pedem-nos algo para comer. Damos água.

Continuamos para a Huasteca Potosina, tínhamos vários destinos. O mamute continuava bem, mas subimos uma montanha a caminho do ”Sótão das Andorinhas” e pronto, começou a aquecer e aquecer. Paramos, saio e estava a deitar vapor… esperamos e vimos que pouco a pouco começava a baixar. Chegamos finalmente ao sótão e o guia diz-nos que é normal e que passa a toda a gente que sobe esta montanha. Que inclusive um casal, continuou e a van deles acabou por pegar fogo. Depois foi sempre a descer e o carro reagiu bem.

Levamos ao mecânico, já sabem que adoramos estar no mecânico. Ele verificou que estava tudo bem, viu o líquido de arrefecimento do radiador e seguimos viagem.

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Na estrada pela fronteira #7

A nossa segunda fronteira terrestre.

Muito se escreve sobre as fronteiras terrestres. São inúmeros os blogs com dicas, com tempos de espera médios, com mapas da zona alfandegária. Temos tudo escrito num Excel, e quando estamos a 2 dias de passar a fronteira relemos tudo. Checamos os números e os locais das embaixadas. Vemos o que é necessário para a Duna. Preparemo-nos. Mais uma vez, voltei a ficar nervosa. Antes tínhamos ido a um veterinário atestar que a Duna estava bem e que não se passava nada com ela.

Passamos a fronteira em Laredo no Texas, uma sexta-feira quente. A mesma em que no mexico houve um sismo de 8 na escala de Ritcher. Fomos, pararam-nos para ver os passaportes, entraram na carrinha para dar uma olhada e desejaram-nos boa viagem. Seguimos, e nada, mais ninguém. Paramos a 100 metros numa casa de câmbio e perguntamos onde é que se obtia a autorização para o mamute.

Chegamos ao local, fui buscar a minha autorização para entrar no país. Nem o passaporte tinham carimbado. O Ivo ficou com a Duna. Fui a outro balcão tirar cópias. Passei a outro balcão. Olham para o papel que eu tenho do Canadá em como o carro me pertence, e dizem que não vai dar. Porque no papel só tem os meus apelidos e não o meu nome. A solução é eu vender o carro a mim mesma. Mandam-me para outro balcão. O senhor não percebe o que eu quero, diz que não tem nada a ver com isso. Vai perguntar a pessoa que me mandou para aquele balcão. Volta com a mesma informação, de que tenho que vender o carro a mim mesma, mas agora com o nome completo. Segundo eles basta preencher o mesmo papel atrás numa parte da venda. Faço-o. Tenho que ir tirar cópias outra vez. Volto de novo só sítio onde me vão dar a autorização. Tenho que pagar uma caução, mais a autorização do carro, mais a minha. Só aceitam em dólares ou cartão. Entrego em dólares, a rapariga encontra uma nota de $20 falsa. Isto hoje não está fácil. Já tenho tudo. Vou fazer o seguro do carro. Simples. Nada a ver com o tormento que passamos no Canadá. Fazemos por um mês, mas pode-se fazer por 2 ou 3 dias.

Saiu e é a vez do Ivo ir pedir a sua autorização. A ele deixam-no pagar em pesos. Seguimos viagem até Saltillo.
A Duna foi completamente ignorada neste processo

Na estrada pelo Texas #6

O Harvey deixou sequelas por todo o Texas, principalmente na parte este. Era para lá que íamos para depois cruzar para o México. Lemos que as estradas por onde íamos estavam em condições para conduzir e seguimos caminho.

Deixamos Nova Orleães, passamos por Baton Rouge, Lafayette e continuamos. Ainda não tínhamos chegado ao estado do Texas e já víamos sinais de que a estrada estaria cortada. Tivemos que optar por outro caminho, conduzimos para norte para depois descer para o texas. Nesse percurso em cada estrada secundaria estava um carro da polícia que não deixava passar.

Como nós seguiam muitas outras pessoas. E tivemos oportunidade de ver o lado solidário dos americanos.
Tínhamos lido histórias de amor que o furacão Harvey tinha trazido.

1 – Jim McIngvale tem duas lojas de móveis e decidiu dar uso as suas camas e colchões abrindo as lojas e convidando as pessoas sem casa a ficarem lá. Até colocou à disposição os seus camiões e camionistas para ir buscar as pessoas. Acabou por dar abrigo a mais de 800 pessoas.

2 – Civis com barcos foram salvar pessoas, não só civis do texas mas de outros estados que pegaram nos seus atrelados e conduziram para o Texas para salvar e resgatar pessoas.

3 – Matthew Otero com a ajuda de um gerador e da sua família manteve a sua loja de Donuts aberta para fazer donuts e café para ajudar aqueles que precisavam de força para recomeçar depois do furacão.

Vimos carrinhas pick-up com a mala cheia de móveis para doar, atrelados carregados garrafas de água. Um casal que nos emocionou e que seguia com um atrelado com feno mais a sua pick-up com de água e que escreveu “da Carolina do Sul para o Texas”. Teria sido como nos irmos até à Alemanha para doar feno… é preciso ter muito amor.

Fizemos assim os 6.000kms com a certeza de que nem todo o mundo está interessado nos saltos da primeira dama dos Estados Unidos, muitos estão ocupados a tentar ajudar e deixar o mundo um lugar melhor

Balanço #4 e #5

Ou alguns percalços, a mais de 3.000km, antes de chegar a Washigton tivemos que mudar o alternador.

Não sabemos se foi por culpa disso mas compramos um carregador de isqueiro que tem duas entradas USB e duas tomadas, íamos com tudo a carregar: bateria da câmara, telemóvel , powerbang e computador. De repente, deixou de dar, achamos que tinha sido o nosso super carregador. Ok, comprávamos outro. Mas passado pouco tempo apareceu no painel a luz de “check engine”. Raios-parta-esta-merda! Como estávamos na nacional foi fácil parar e perguntamos a um miúdo, com pouco mais de 16 anos, onde havia um mecânico perto. Ele super prestavel disse onde era e até ligou para o pai dele a saber se ainda estaria aberto. Acabou por nos levar até lá. O mecânico viu logo que era o alternador. Fomos à vila mais próxima comprar um, a carrinha ia andando sem problemas, dormimos por lá e no dia seguinte voltamos ao mecânico. Ele mudou o alternador, verificou todos os líquidos, tranquilizou-nos, dizendo que o barulho do motor estava ótimo.
Perfeito, seguimos viagem.

Fomos andando para Sul, tínhamos como missão ir a Ashville na Carolina do Norte, e depois seguir para Nova Orleães. Pouco depois de passarmos Washigton, ainda não tínhamos chegado aos 4.000 km, sentimos que o mamute começava a tremer muito nas mudanças mais baixas. Como estávamos a fazer muitas subidas, aquilo estava a assustar-nos.

Era sábado, paramos num local com vários reboques, e um senhor veio amavelmente ter connosco. Dissemos-lhe o que nos preocupava e ele rapidamente viu o que era a “U-joint”, uma peça que ajuda a levar as mudanças para a parte de trás. Disse que podíamos ir até à vila mais próxima mas que devíamos mudar lá. Não nos cobrou nada pelo diagnóstico. Chegamos e compramos a peça, fomos a um mecânico que nos indicaram na loja que mudou a peça no próprio dia. Mas gostamos da vila, era pequena, com vários restaurantes locais e apeteceu-nos pernoitar por ali.
No dia seguinte, demoramos a sair, era domingo. Fomos almoçar umas almôndegas maravilhosas e ver a vida da vila. Saímos, e devemos ter feito 10km, o mamute começou a tremer todo, paramos imediatamente. Vimos que não ia dar para continuar e que tinha sido um trabalho mal feito pelo mecânico. Era exatamente o mesmo problema, mas agora ainda estava pior, porque nem nos deixava seguir viagem, o cano estava todo no chão.
Reboque, era a solução. Olho para o telemóvel: sem redes disponiveis. Raios-parta-esta-merda #2! Civilização pouca, fomos a um parque de trailers, conseguimos falar com um senhor que nos tentou ajudar mas ao Domingo: tudo fechado. A mulher veio chamá-lo porque estávamos a interromper o almoço deles. Só nos restava ir a pé: 10 km até à vila. Tentamos que alguém parasse, ninguém.

Começamos a caminhar, encontramos um centro de saúde e fomos pedir para nos chamarem um táxi: domingo, não há táxis disse-nos a recepcionista. Há um senhor que se apercebe que precisávamos de boleia e leva-nos até à vila. Fomos à loja onde tínhamos comprado a peça, tentam falar com o mecânico. Ele diz que não está na cidade. Chamam-nos um reboque que primeiro nos veem buscar e depois vai connosco até ao mamute. Passamos a noite de domingo à porta do mecânico. De manhã, resolve-nos o problema. Diz que a peça que tínhamos comprado veio com defeito. Promete-nos que não volta a passar. Seguimos viagem, esquecemos Ashville, queremos chegar a Nova Orleães. Avançamos para a auto-estrada e vemos passar: Norte Carolina, Alabama, Mississipi, … em cada estado saímos pelo menos uma vez da auto-estrada para ver algo que faça valer a pena os quilómetros.

Chegamos aos 5.000 e esperamos que o mamute continue a mostrar a sua valentia.