Pela fronteira no # Vietname

Há momentos que nos marcam para sempre. Para o bem e para o mal. Esses momentos podem ser grandes acontecimentos como o nascimento de um filho, o nosso casamento, o realizar de um sonho, ou podem ser coisas muito pequenas. Tão pequenas que acreditamos dali a um mês não tenham mais impacto. Não é o caso. Nunca mais nos meteremos num autocarro da mesma forma descontraída depois desta viagem que fizemos entre o Laos e o Vietname.

No dia seguinte ao casamento do Tock onde exageramos na bebida, acordamos cedo eram 6 e tal da manhã para apanhar um autocarro para Dien Bien Phu, cidade no norte do Vietname, perto da fronteira e palco de uma grande batalha na guerra da Indochina. Acordamos não só de ressaca mas também exaustos pelas únicas 3 horas de sono, pensamos em não ir. Mas a cidade em que estávamos era pouco interessante e já estávamos lá há 4 dias, não íamos aguentar mais um e por outro lado o Vietname chamava por nós.

Sabíamos que não ia ser fácil. A viagem que fizemos desde Luang Prabang até essa cidade no Laos tinha-nos preparado para isso. 6 horas para 150km com mais de 6 paragens, para irem à casa de banho no meio da floresta, para comprar laranjas, para almoçar e para o motorista fazer negócios pelo caminho. Esta viagem ia demorar 8 horas e ainda tínhamos uma fronteira pelo meio. Se fosse hoje não teria ido naquele dia.

Entramos no autocarro e o rapaz que cobra os bilhetes disse logo onde nos tínhamos que sentar, olhamos e não há sítio para por os pés, a parte de trás do autocarro vai cheia de caixas e atiram para lá a nossa mochila da roupa, a do material vai connosco, e debaixo dos bancos cabem mais caixas, e sacos. Os meus pés vão em cima de uma caixa. O Ivo senta-se ao pé da porta. O autocarro não vai cheio. Entram mais duas viajantes francesas, uma filha de pais portugueses rapidamente se inicia numa conversa connosco que ajuda a passar o tempo. Tentamos dormir, mas com as curvas e o constante buzinar do autocarro à espera que entre mais gente torna-se difícil.

E vão entrando mais e mais pessoas. O autocarro tem 15 lugares mas estamos lá dentro 24 pessoas. A nossa frente um senhor vai praticamente sentado no colo de duas raparigas, outros sentam-se em cima dos sacos cheios de conchas e outras coisas que levam lá, outros vão a pé. Mais curvas e curvas. Até que estão três pessoas já a vomitar no autocarro: uma pela janela fora, outra fazendo imenso ruído, e a outra sou eu, silenciosamente. A dor de cabeça é constante, para não nos desmotivarmos eu não digo nada ao Ivo e ele também não me diz nada mas ambos queríamos ter mandado parar o autocarro e ficar ali na terra de ninguém e quem sabe ir a pé, ou esperar por uma boleia, qualquer coisa que fosse melhor do que aquilo. Uma mulher para se equilibrar aperta a minha perna, a mesma que olha para os pés do Ivo para ver se consegue arranjar lá um espacinho para se sentar. Se pelo menos levassem as caixas, os sacos, em cima do autocarro. O meu banco está partido e balança em cada curva, range em cada buraco. Paramos para ir às casas de banho, para almoçar e para deixar encomendas. Numa das paragens passado mais de 4 horas o autocarro esvazia um bocado e posso sentar-me ao lado da janela acabando por adormecer.

As pessoas para saírem tem que passar por cima dos bancos, umas por cima das outras.

Chegamos à fronteira. Tudo calmo, rápido e sem custos. Voltamos ao nosso autocarro do inferno que continua cheio de tralhas e cujo motorista dá subornos em bolachas aos guardas alfandegários para passar com aquilo tudo.
E rapidamente começam os recados, parar aqui e ali para entregar mercadoria. Até que chegamos ao nosso destino: Dien Bien Phu.

Fomos para o melhor hotel da cidade, uns 10€ por noite, com água quente, internet, varanda e muito limpo. Saímos para conhecer a cidade e comer qualquer coisa, já que não metíamos nada ao estômago desde a noite anterior. Sabiamos que dali nos esperavam 7 horas de autocarro para Sapa ou 10 para Hanoi. Não conseguíamos apanhar o autocarro já no dia a seguir, não tínhamos força. Ficamos mais uma noite, de sábado para domingo. Acordamos no domingo de manhã, sem luz. Perguntamos e disseram-nos que ao domingo na cidade cortam sempre a luz. Nem queríamos acreditar, esperemos que não seja assim em todo o Vietname.

E então ao final da tarde lá apanhamos o autocarro para Hanoi. Gostávamos de ter ido a Sapa, mas aquela viagem de autocarro mudou-nos e ir a Sapa implicava pelo menos mais duas viagens no autocarro do inferno. Não conseguíamos.
A viagem para Hanoi foi num sleeping bus, íamos à frente de todo e conseguimos por o iPad a carregar, enquanto isso música Vietnamita ao berros. Paramos para jantar e depois dormirmos acabando por parar só ao chegar a Hanoi. Não foi assim tão má como a outra. Serviu para nos tirar o pânico. Mas o Vietname é grande e ainda há muito caminho a percorrer.

Pela fronteira no # Laos

Atravessamos a fronteira da Tailândia para o Laos.

Compramos a nossa passagem até Luang Prabang, Laos, em Chiang Rai e seríamos acompanhados desde o nosso Hostel até à cidade que é património da UNESCO. Ao contrário de quando viajávamos de carro não tínhamos pesquisado nada, apenas se era possível obter o visto à chegada.

Chiang Rai White temple

Ainda não eram seis da manhã quando o dono do Hostel onde estávamos nos bateu à porta para descer, o nosso transporte tinha chegado. Uma carrinha de 12 lugares, mas ainda faltavam encher 8. Começamos o nosso percurso por outros hostels e o motorista falava rápido, parecia nervoso. Sempre a perguntar a toda a gente pelos passaportes e a certificar-se que tínhamos dólares para pagar o visto na fronteira.  3 kms antes parou numa bomba, voltou a certificar-se que tínhamos tudo e disse-nos como seria quando chegássemos.

Between Chiang Rai and Laos

Carimbaram-nos o passaporte de saída da Tailândia, entramos num autocarro onde gostamos de chamar terra de ninguém e voltamos a sair já na fronteira do Laos, fizeram-nos o visto na hora e pagamos 35$ cada. Aproveitamos para gastar os últimos bath ( moeda da Tailândia) num café e em cigarros e trocamos para Kip (moeda do Laos) a conversão é fácil 1€ = 10.000 kip. Estamos milionários!  De lá entramos num Tuk-tuk com os nossos 10 companheiros de viagem. Explicam-nos que ja tem os nossos bilhetes do barco, que temos os lugares assegurados e que nos vão levar para um café onde podemos relaxar até à hora do barco.

Levam-nos para o que supomos ser a casa de um deles, tem um mini mercado improvisado com água, sumos e snacks e três senhoras que fazem baguettes com omolette e frango. Entretanto chega uma outra que nos recomenda comprar comida porque no barco não há, que na cidade onde vamos não há dinheiro mas que podemos trocar ali e que se quisermos reservar Hostel para o sítio da primeira paragem ela sabe um sítio muito bom. Ahahhaha! Que negócio tão bem montado, é o que se chama em economia de concentração vertical. Aceitamos a dormida porque o preço é bom e assim não temos que andar preocupados com isso. E vamos para o barco, ao chegar dão-nos os bilhetes, supostamente os sítios estão assegurados. Mas aquilo não tem lugares marcados nenhuns e apesar de termos ficado bem, a realidade é que nos andaram a enganar.

Monk in Laos slow boat

O barco começa a andar e está um frio desgraçado, não tenho posição, tento dormir, nada. Vão ser 7 horas do inferno. Uma ansiedade enorme, não sei se por estar dentro de água num barco velho que faz barulhos por todo o lado, nunca fico assim com viagens longas. Mas senti-me terrível.

Deixar o tempo passar no barco

Entretanto lá adormeço por uns 10 minutos, vemos um filme, tentamos ver outro, levanto-me para ir à casa-de-banho, há pessoas a beber, a jogar às cartas, rir, muitos conheceram-se alí no barco. Mas eu estou mesmo a sentir-me mal, muito ansiosa e não me apetece falar com ninguém. O tempo parece congelar, que raio de ideia um showboat. E vão ser dois dias disto. Onde me fui meter. Aí que saudades da carrinha. Sento-me no chão, tapo os olhos, tento dormir outra vez. Vou comprar batatas-fritas para ajudar a passar o tempo, as bolachas que tínhamos trazido já foram todas. Acompanho no mapa o percurso que estamos a fazer. De vez em quando o barco, chega-se à berma e sai alguém. No meio do nada.

 

E chegamos. À saída do barco, numa pequena vila as crianças pedem aos turistas tudo o que eles têm: água, restos de sumo, bolachas,… o Tuk-tuk para o hotel já nos espera, é mesmo ali ao lado mas a subida é íngreme e agradecemos. Chegamos a um modesto quarto e deixamos as pesadas mochilas. Depressa vamos para a vila, pastelarias e lojas a vender os bem essenciais para estes turistas que ficam apenas uma noite. Numa padaria somos atendidos por três crianças, a mais velha de 12 anos prepara a comida, o de 10 recebe o dinheiro e o mais pequeno de 8 tenta que os outros brinquem com ele.

Depois de uma noite de sono, no dia seguinte logo pela manhã o cenário repete-se os barcos partem, atarefadas as pessoas tiram os sapatos antes de entrar, turistas e locais acomodam-se entre os sítios vazios, as mochilas fazem perder o equilíbrio ao entrar, alguns vem já de cerveja na mão. Outros com filhos dão o exemplo de que para viajar basta querer. No dia anterior já tínhamos comprado comida que esperamos ser suficiente. Água, bolachas, bananas, laranja, croissants, queques e um pão.

A viagem vai ser longa, com sorte vamos poder avistar mais uns elefantes, porcos, cabras, vacas, que usam o rio como bebedouro. A vila volta a ficar deserta à espera dos novos turistas que chegarão ao final da tarde e que vão encher de vida. Eu volto ao meu sofrimento com o consolo de que a viagem vai ser mais curta uma hora.

Se houvesse um trabalho de sonhadora…

Se houvesse um trabalho de sonhadora queria ser CEO.
Posso passar horas a sonhar com a viagem que vamos fazer já amanhã, com as férias que vou tirar para o ano, ou com a viagem que já estamos a planear para daqui a 10 anos. Mas não sonho só com viagens, estão sempre a planear o próximo passo. E se por vezes me obrigo a viver mais no presente é esta constante necessidade de sonhar e realizar que me faz avançar.

Prédios em Toronto

Muitas vezes ao nos irmos transformando em adultos (palavra mais horrível, enfadonha e chata de todas) sentimos que já não podemos sonhar e tornar esses sonhos em realidade, já não temos idade. A responsabilidade chega e vamos desistindo de ouvir o coração. Quando foi a última vez que tiveram um sonho? Todos sonhamos com ganhar o Euromilhões e o que fariamos, mas depois há vários tipos de sonhadores: os que sonham com o impossível: Sereias, fadas, heróis de banda desenhada; os que sonham com o que há mais para além do visível: como os astronautas, os que pesquisam sobre física quântica, cientistas, …., e depois os que sonham os sonhos possíveis, que veem um oceano e procuram o seu oceano azul ou branco, procuram fazer a sua diferença, e que mesmo que pareça impossível, tentam, porque para eles, se tentares muito, consegues. Mas é preciso não desistir nunca,  ainda por cima porque há que lutar contra um mundo negativo, que nos diz que nada é possível, que estamos malucos.

Vulcão de Água em Antigua

Mas o sonho é o que nos vai atirando para a frente, com pequenos empurrões. Quem me conhece sabe que já tive mais de mil ideias de negócio e que algumas avançaram para um business plan mais ou menos detalhado, sabe que algumas seguiram para a frente e que outras ficaram pelo caminho. As vezes podem não me levar muito a sério… “oh não! La vem ela com outra ideia que nunca vai avançar…” mas eu tento. Vou testando até onde consigo ir e se vir que não tenho tempo ou não funciona, desisto, algumas coisas vou insistindo, como isto da viagem.

Pôr-do-sol Texas

Sou também uma sonhadora dos outros, é ver alguém dizer-me que quer mudar de vida, que gostava de abrir um negócio, que está a sonhar com qualquer coisa e embora às vezes não o diga para não parecer uma intrometida começo logo a pensar no que a pessoa poderia fazer para levar esse sonho para a frente.
Adoro sonhar tanto como gosto de tentar passar das ideias as ações, nos empregos que tive algo que posso dizer é que raramente disse que não dava ou que algo não se fazia em dois dias, se é para fazer é para fazer e vamos já por mãos à obra antes que se faça tarde.

Pôr-do-sol Praia Flores – Nicarágua

A viajar durante tanto tempo, todos os dias são de planeamento, de sonho. Hoje sonho com a nossa ida para o Delta do rio Mekong  e sei que amanhã vou aproveitar tudo mas já a sonhar e planear a nossa ida para o Camboja, é um constante de dias a planear o dia de amanhã. Por isso odeio a rotina, na rotina não pensamos, não planeamos, está alí e é o mesmo todos os dias! E já estamos a planear algo muito giro para o regresso que me tem roubado um bocadinho os dias. Espero que fiquem curiosos!

Se houvesse um trabalho de sonhadora eu queria ser CEO.

e assim uma forma de sonharem connosco é irem ao YouTube e subscreverem o nosso canal, temos lá um vídeo surpresa sobre o Laos que ainda não viram

Natal fora de casa…

Este Natal trocamos a casa pela descoberta, trocamos o miminho da família pelos sorrisos dos desconhecidos. Não vamos ter bacalhau, batatas cozidas, nem azeite, vamos ter pad Thai, arroz e soja. De todos os doces o único que encontramos por aqui é o arroz doce mas os tailandeses chamam-lhe sticky rice e juntam-lhe manga. Não vamos ver os mesmos filmes de sempre, vamos sim contemplar uma cidade nova, os monges vestidos de laranja nas suas tarefas, as senhoras a prepararem-se para mais um mercado.

A lareira e o aquecedor não fazem falta este Natal, não fizemos o pinheiro e contam-se pelos dedos de uma mão o número de pinheirinhos que vimos. Felizmente aqui não se celebra e por isso também não vai haver espaço para nostalgias! Não compramos um único presente de Natal e também não pedimos nada no sapatinho, depois de toda a bênção que estamos a ter por estar aqui agora, seria uma ousadia pedir mais qualquer coisa ao Pai Natal.

Este Natal trocamos o pijama polar por um biquíni, não porque vamos para a praia mas porque já não temos mais roupa lavada. Trocamos os jogos de tabuleiro por um passeio no mercado e enquanto estiverem a cear nos já estaremos a dormir e quando o pai Natal chegar a Portugal, religiosamente à meia-noite aqui já serão 7 da manhã e voltaremos a trocar o pequeno almoço de pão-de-ló de ovar com queijo da serra e restos dos bolos da noite anterior por mais umas torradas. Vamos trocar as tradições com os amigos por chamadas de skipe, e a ida aos avós por um WhatsApp com direito a vídeo. Vamos trocar as conversas prolongadas sobre tudo e sobre nada pelo silêncio de sabermos que é só um Natal e que para o ano celebramos em dobro.

Não vamos ficar triste porque foi o que escolhemos, mas se pudéssemos pedir um desejo seria o de que todos viessem aqui ter connosco. Não me venham com histórias de que o Natal deve ser frio. O Natal quer-se quente, cheio de calor humano, de um sofá a transbordar de gente, de mantas pelo chão para caberem todos. Quer-se quente de abraços apertados e da adrenalina que nos aquece as veias ao abrir aquele presente que tanto ansiamos ainda que não seja surpresa nenhuma. Deve estar a ferver quando provamos as batatas para ver se estão cozidas, ou quando bebemos aquele último copo de vinho do Porto.

E é isso que desejamos a todos, um Natal muito quente!

Passagem para outro lado do mundo

Para quem nos segue no instagram viu pelas nossas stories que um dia estávamos na América Central passado uma semana já estávamos em Doha e depois na Tailândia. Como?

Quando começamos está viagem tivemos logo uma lição de paciência ao ficar 15 dias à espera de peças para o carro num parque de estacionamento. E isso ensinou-nos que tínhamos que ter calma e ir devagar. Com o nosso mamute percorremos estradas do Canadá até à Costa Rica e demoramos 5 meses. Pelos nossos planos só teríamos mais um ou dois meses, no maximo, para fazer a América do Sul. Ou então deixávamos de lado a Ásia e conhecíamos toda a América. E depois veio uma oferta para comprar o mamute na Costa Rica.

Pensamos muito, mais de três dias em que só falávamos disto. Perguntamos à nossa família, aos amigos mais próximos, a viajantes profissionais como o Filipe Morato Gomes e aos colegas do curso de escrita de viagens, o que é que eles achavam que devíamos fazer.

  1. Vender a carrinha na Costa Rica e seguir para a Ásia, deixando a América do Sul para outra altura.
  2. Seguir para a América do Sul, o que poderia comprometer a viagem à Ásia, já que teríamos alguns custos extra, o tempo não estica e podíamos não conseguir vender lá a carrinha. No Brasil as leis de importação são proibitivas e teríamos sempre que vender no Chile.

Ponderamos, e ouvimos. Eis os argumentos para uma e outra decisão:

  • A América do Sul é imperdível, e tem paisagens únicas, mas culturalmente apesar de diferente nunca seria tão diferente como a Ásia.
  • Já estivemos ambos no Brasil, eu na Colômbia e o Ivo no Peru e nenhum dos dois conhecia a Ásia. Se tivéssemos que abdicar de um continente para conhecer qual seria?
  • Poderíamos viajar pela América do Sul mas só em Março estaríamos a ir para a Ásia e isso iria comprometer visitar alguns países.
  • Através da aplicação iOverlander vimos que apesar de só se falar de violência no México a realidade é que no Peru foi onde vimos mais sinais de exclamação de pessoas a dizerem que foram assaltadas.
  • Enviar o carro do Panamá para a Colômbia é um stress e toda a gente se refere a este momento como o pior de toda a viagem pan-americana. É preciso ir para o porto, tratar de papéis, arranjar alguém que partilhe um contentor, sair do Panamá de avião ou fazer um cruzeiro pelas ilhas San Blas. Chegar à Cartagena e voltar a tratar de burocracias durante dois dias. O processo demora quase 2 semanas.
  • A Ásia é um ótimo destino para backpacking, seguro, com bons preços e se não fôssemos agora numa viagem de mochila às costas, com dormidas em hostels dificilmente voltaremos a ir.

Mas, por outro lado…

  • Ir para a Ásia significava deixar a Duna em Portugal. É difícil passar algumas fronteiras onde exigem períodos de quarentena de 7 dias. Outros são perigosos com raiva. Nós gostamos mesmo muito da Duna e nunca a submeteríamos a nada que lhe pudesse fazer mal.
  • Deixar o mamute. E esta vida de vanlife. Gostamos mesmo de viver num carro durantes estes 5 meses. O mamute é perfeito, vocês viram o espaço todo que tem. Podemos cozinhar. Os bancos são super confortáveis para conduzir… e depois chegamos aonde queremos com ele. Podemos ir de aldeia em aldeia, parar para fotografar uma paisagem. Dormir numa bomba de gasolina quando estamos cansados.
  • Não visitar: Equador, Buenos Aires, Minas Gerais e outros recantos do Brasil….

Se a realidade é que para a Ásia os voos são mais baratos, por outro lado, sabemos que conseguimos umas boas viagens para a América do Sul em qualquer altura, com companhias a viajar para o Brasil e que por nos ser tão querido este é um país onde nos imaginamos a voltar várias vezes. E porque não voltar a ter uma vida de van life mais tarde e ir até à Patagônia?

Claro que pensamos em não fazer nada disto, pegar no dinheiro e enviar a carrinha para Portugal. Mas os custos de importação para um carro tipo autocaravana, com este motor eram de 16.000€. Nem nos nossos maiores sonhos era possível.

Aproveitamos o dinheiro que iríamos gastar a enviar o carro e compramos as nossas passagens áreas. Da Costa Rica não há voos diretos para Portugal, por isso e como não queremos escalas por causa da Duna. Compramos um voo para Newark, ficamos 3 dias em Nova Iorque a aproveitar a cidade numa altura em que já só cheira a Natal e daí fomos para Lisboa com a TAP.  A ideia era aparecer de surpresa em cada, mas a TAP tramou-nós e cancelou o nosso voo quando já estávamos no aeroporto e com a Duna dentro d avião. A experiência foi terrível, porque não tivemos nenhuma assistência já que viajamos com uma cadela. Mas não vos quero maçar com isso. Chegamos a casa na quarta e sairíamos no sábado.

A Duna ficou em Portugal, entre muitas lágrimas minhas. Se é preciso uma vila para realizar um sonho, pedimos ajuda a várias pessoas. Vai ficar com a mãe do Ivo, que vai ter muito trabalho em juntá-la ao Pancho, o gato!  vai ter um passeio todos os dias com os fantásticos do Patas&Patinhas. Se, por acaso, começar a ficar muito triste, que esperemos que não aconteça… voltamos para casa. Ela é mais importante do que qualquer sonho nosso. (Update, já estamos cá há mais de duas semanas e não tem saudades nenhumas nossas. Que bom).

E quanto ao mamute, bem… estamos na viagem para colecionar momentos e não coisas por isso que de muitas alegrias aos seus novos donos.

It’s my birthday

Ontem foi o meu aniversário, 30 anos. Espero que 1/3 da minha vida.
Por esta altura colocamos muitas vezes a vida em perspectiva. Enquanto crescíamos esta era a idade com que os nossos pais nos tinham tido, era a idade dos nossos professores, das pessoas que já tinham a sua vida decidida e no meu ver que já não tinham decisões para tomar. Muitas pessoas ficam deprimidas porque os 30 eram aquele marco em que já teriam comprado a sua casa, casado talvez, ou teriam o seu primeiro filho. Aos 30 já seríamos adultos!

Nunca tive os 30 como um marco porque consoante a idade foi avançando nunca deixei de me sentir uma miúda, muitas vezes tímida e que não se leva a sério.

Não pensei estar aqui hoje, mas também não me imaginava a trabalhar num escritório. Enquanto cresci fui desejando ter inúmeras profissões, mas nunca quis trabalhar das 9 às 6. Quis ser veterinária, actriz, hospedeira, repórter de guerra,… fui seguindo um caminho que era fácil para mim, que foi natural e por ter ido parar a áreas que gosto muito como moda e perfumaria seletiva, diverti-me e continuei! Até ver que estava a deixar o meu sonho de conhecer o mundo para trás, e se são os sonhos que nos tem a nós, como diz este vídeo que eu adoro, e eu sempre fui uma miúda bem mandada tinha que fazer o que este sonho me dizia.

Para mim os anos não se medem em anos mas em ações, o ano de 2016 foi um ano estúpido, lembro-me de conversar com amigos num jantar de natal sobre o que esse ano nos tinha trazido e todos concordamos que tinha sido muito irrelevante. (Claro que houve o Pokémon Go, mas tirando isso nada de mais) Fui tentando marcar os anos pelas coisas que fiz. Aos 17 entrei para a universidade, aos 20 fui para Barcelona sozinha, aos 21 o caminho de Santiago, aos 22 voltei de vez, aos 24 fiz uma pós-gradução, aos 25 sai da Salsa que me ensinou tanto, aos 26 fomos a fundo na AZ experiências, aos 27 conheci o Ivo, aos 28 abracei um projeto de voluntariado criado por mim e pela Mel e envolvi amigos e clientes, aos 29 consolidar a viagem e começar e aos 30 a realidade. Passaram 5 meses e agora falta quase tanto para voltar a casa como o tempo que já passou.

Repito os anos não se medem em anos mas em ações, em experiências, medem-se no número de vezes que ficamos com um enorme aperto no estômago e saímos da nossa zona de conforto, medem-se nos riscos que tomamos, nas palpitações aceleradas, nos beijos demorados e abraços apertados, medem-se nos jantares prolongados e nas conversas sem sentido, medem-se nos afetos que damos aos outros, nos sorrisos que partilhamos, nas vezes que fazemos alguém rir, medem-se na alegria de comprar um presente sem motivo para alguém que amamos, medem-se nas lágrimas que nos ensinam que a vida é única, que o nosso coração está a pulsar, nas chamadas à distância para saber aquelas notícias tão boas. E é por isso que digo que espero ter vivido até agora apenas 1/3 da minha vida.

Houve tempos em que quis medir os anos em países visitados, por cada ano um novo país, mas a viagem ensinou-me a viajar devagar. A contar as experiências que me ficam gravadas e não os países, aprendi a usufruir de um sítio novo onde me sinto em casa como Antigua, a fintar a tradição e a loucura em Nova Orleães, descobrir novas formas de entretenimento como quando ficamos 15 dias em Aurora, a superar-me como a subida ao Acatenango, a ver a vida em pleno numa praia da Nicarágua, a chorar de emoção ao ver as tartarugas a desovar, ou rir com os macacos de Tikal, a pensar em quão agradecida estou ao António por nos ter ajudado a desenterrar o carro, a recordar outras experiências de viagens passadas como as aulas de culinária ao meu palato com a maravilhosa comida do Rio de Janeiro, as caminhadas lentas para entrar nas água da Croácia ja que as pedras pareciam agulhas nos pés, comer um bolo de chocolate em Amesterdão e achar que nunca conseguiria chegar ao hotel, rir para sempre com dois miúdos em Veneza que até para comerem um gelado tinham que estar na fila e gritam: turísti maledetti, a descobrir Paris sozinha nalgumas viagens de trabalho, a ver a vida nos anos 50 ao viajar a Cuba e tantas outras….
Outro dia lia um texto do que muito admiro Filipe Morato Gomes sobre contar países e fiquei com esta frase na cabeça: Mas que fique claro: uma pessoa que já esteve em 50 países não é necessariamente mais viajada do que outra que esteve em apenas 20. E como o Filipe eu também admiro quem volta aos lugares. Voltar a um lugar é coragem, com tanto mundo para ver, sentir que temos que voltar ali é algo único. (O meu país para voltar será sempre o Brasil)

Muitas vezes ouvimos  devíamos ter feito está viagem mais cedo, que agora tínhamos que estar a trabalhar, que não temos idade para estas coisas, já estamos nos 30 caramba! Mas se tivéssemos feito isto mais cedo teríamos tido este vagar na viagem? Teríamos valorizado as pequenas coisas como valorizamos agora? Ou iríamos atrás de uma festa sem olhar nos olhos das crianças e tentar ficar com um bocadinho do seu entendimento simples da vida? O nosso momento é agora! E temos ainda tanto para viver. Ah, estou tão feliz com estes 30 cheios de incertezas, de dúvidas, de decisões por tomar, cheios de magia por podermos abrir um novo caderno no regresso e escrever uma nova história juntos, o Ivo e eu.

Aos 30 continuo a ver-me como a miúda de 10 que mudou de turma e que morria de medo de ir para a escola dos grandes, ou a de 20, determinada, que foi para Barcelona e que chorava por se sentir sozinha mas que não voltaria até poder chamar a essa cidade de casa. Aos 30 ainda não me levo a sério, ainda quero ser a menina do papá, a irma mais nova da Mel, o baby da mummy, a chorona dos meus amigos, não há idade para deixar de receber mimo e ainda bem que vos tenho a todos. Porque mesmo longe recebi o vosso carinho delicioso.

Obrigada, estes são os 30 que eu queria, mesmo sem saber!

Pela estrada #15 nas fronteiras

E chegou o dia em que tínhamos que sair da Guatemala. Adoramos o pais, as suas pessoas, o tempo. Foi difícil. Combinamos que íamos sair muito cedo porque queríamos passar 3 fronteiras num só dia. Não íamos parar em El Salvador nem Honduras devido às notícias e avisos de amigos sobre o quão perigoso é. De facto, também não tínhamos visto algo que quiséssemos mesmo visitar nestes países e a Nicarágua chamava por nós.

Em Antigua ficamos hospedados no Hostal Antigueno, dormíamos no Mamute mas usávamos as instalações do hotel e tínhamos direito a pequeno-almoço. A cozinha era ótima e até jantamos por lá duas vezes. fizemos uns amigos portugueses com quem subimos ao vulcão Acatenango. Eles ainda iam ficar mais uns dias, e no dia antes da nossa saída chegou ao hostel o casal do projeto It’s not a Slow car it’s a fast house, do qual já falamos. Sentimo-nos em casa, com amigos.


No dia da partida acordamos cedo para tomar pequeno-almoço, mas estávamos entre amigos e eram 11h00 quando finalmente conseguimos dizer adeus a todos e despedirmo-nos. Custou mas lá fomos. Antes já tínhamos mudado o trajeto, íamos mesmo parar em El Salvador apesar de tudo o que diziam. El Tunco tinha incríveis praias onde era possível surfar.
Conduzimos uma hora para chegar à primeira fronteira. Estradas ok, com alguns camiões. Passamos a fila dos camiões em sentido contrário e chegamos. Foi fácil o processo. Íamos munidos de cópias. Mas ao sair da Guatemala esquecemo-nos de cancelar a importação do carro e tivemos que voltar para trás. Demoramos por isso mais uma hora na fronteira.
No El Salvador não é preciso seguro e depois de ter o papel do carro foi só seguir.
Os países da América central dão um visto de 90 dias para todos, por isso não carimbam o passaporte quando entramos num novo. Apenas verificam que ainda é válido.

Lemos que El Salvador tinha das melhores estradas da América central e Sul. Não ficamos desiludidos. Íamos por uma estrada junto à costa e apesar de avançarmos lentamente por causa das curvas, conseguíamos avançar a um ritmo regular. Eram 4 da tarde quando chegamos a El Tunco, mesmo antes de anoitecer. Agendamos uma aula de surf para a manhã seguinte, cozinhamos e dormimos com o som do mar.
Ficamos em El Salvador duas noites. Depois do surf, já era tarde para seguir, tínhamos a missão de sair de El Salvador, passar Honduras e entrar na Nicarágua.
No dia seguinte ainda não eram 7 da manhã e já estávamos na estrada. Fomos parados pela polícia a pouco mais de 50km. Apenas controlo polícial. Estas estradas são usadas para o tráfico de droga, daí estarem constantemente a ser vigiadas. Demoramos 4 horas até à fronteira. Eram 11h00 quando chegamos às Honduras. Tínhamos voltado a ser parados, desta vez por militares que adoraram o que andávamos a fazer e não paravam de fazer perguntas.
Nestas fronteiras é comum ver guias que tentam ajudar os estrangeiros, como falamos espanhol recusamos, eles insistem e nós recusamos uma e outra vez. Pedimos para irem tirar cópias de um documento de saída do carro de El Salvador, pagamos 5€ por 4 cópias.

Avançamos para as Honduras, ninguém quer saber da Duna. Preenchem-nos os papéis, pagamos 30€, mais uma cópia e podemos seguir.  Nas Honduras segundo o GPS devemos demorar umas 3 horas. Mas começam a surgir obras na estrada e engarrafamentos. Nós só queremos chegar à Nicarágua. Depois de passar as zonas mais habitadas, entramos numa estrada no meio da floresta em muitas más condições. Demoramos 2 horas pra fazer 30 quilómetros. Pelo meio crianças e adolescentes tentem que paremos o carro. Seguimos sempre. Tinhamos lido para nunca, nunca parar o carro. Sabemos que vamos chegar à Nicarágua com o pôr-do-sol e o pior é que lemos que esta era uma das piores fronteiras porque como estão a tentar controlar a criminalidade e o tráfico de droga fazem imensas perguntas. Sabíamos de casos de pessoas que demoraram 4 horas.

Chegamos sem incidentes, temos que fumigar o carro uma vez mais, e pagar. A Duna tem que ser vista por um veterinário, e temos que pagar. Carimbamos os passaportes, umas 3 perguntas não mais e vamos para que nos revistem o veículo. Dizem que temos que tirar a roupa e tudo o que temos de lá de dentro para passar nas máquinas de raios X. Impossível, porque não temos mala. Esquecem o assunto. Damos entrada do carro, e já é de noite. Perguntamos se podemos conduzir de noite. Todos orgulhosos: dizem que sim, que as estradas são boas e que não há criminalidade. Arriscamos e chegamos a León às 9 da noite. As estradas estão boas, mas sem luz e com pouca sinalização vamos sempre um bocado mais devagar.

Mas conseguimos, duas fronteiras num dia. Estamos a ficar experts nestes processos.

Hoje Agradecemos

Nos Estados Unidos celebra-se hoje o dia de Thanksgiving, o dia de ação de graças.

É uma tradição que não é nossa mas devia. Porque é que fomos adotar o Halloween quando já tínhamos o Carnaval? O Thanksgiving é um dos feridos que os americanos mais gostam, até mais do que o Natal. Junta-se a família, ou os amigos, ou a família e os amigos, e há comida e jogos, e muito amor no ar. Dá-se inicio a todo um mês de festividades porque em nada chega o Natal.

Mas é principalmente um dia em que as pessoas pensam no que é que o ano lhes deu de bom. E nós que nos temos sentido tão afortunados nos últimos meses temos mesmo que agradecer. E aqui vai a nossa lista de agradecimentos:

1 – Agradecemos à nossa família – ficou aí desse lado a dar-nos força. A perguntar como estamos e onde estamos? A ouvir as nossas incertezas, a dar conselhos. Ficaram e nem imaginam o quanto pensamos neles todos os dias, o quanto gostávamos que tivessem ido connosco ao mercado de Antigua, às praias do México, a toda a Nicarágua ou que estivessem agora a ver o Ivo surfar na Costa Rica, está um pro. À minha família agradeço que mesmo tendo ficado com mais trabalho e sei que não é fácil, tenha percebido que tinha mesmo que fazer isto e nunca em nenhum segundo me pediram para desistir.

2 – Agradecemos aos velhos amigos, que nos ouviram a planear esta viagem durante anos e que embora parecesse que podia não vir a acontecer sempre acreditaram que um dia, um dia íamos conseguir. A esses amigos que nos incentivam a ir mais longe e que nos vão lendo e viajam um bocadinho connosco saibam que estão no nosso coração para sempre. A esses amigos que falhámos por não estarmos presentes no vosso aniversário, ou para vos abraçar num momento tão especial, para vos levarmos a sair e esquecer os problemas, só temos que agradecer por continuarem a gostar muito de nós.

3 – Agradecemos aos amigos que nos ajudaram, que trabalharam neste projeto connosco. Esses amigos deram ideias como o nome World You Need Is Love, outros fizeram vídeos,  conseguiram-nos o mamute, tomaram conta de nós em Toronto. Não é exagero dizer que sem vocês não tínhamos conseguido.

4 – Agradecemos aos amigos que fizemos e que nos revelaram que o mundo é o melhor lugar para se estar, e que estivemos sempre onde tínhamos que estar para os conhecermos. Em Aurora: a Ann e a Louise, que cuidaram tanto de nós, o Chad e o Paul que não desistiram do mamute e nos salvaram; em Nova Iorque: a Amanda, que cuidou da Duna e se transformou numa amiga incrível, e os nossos primeiros noivos: a Lipaz e o Reem; no México a Cinthia e a sua família amorosa que até um casamento na Guatemala nos conseguiram, e aos outros que nos hospedaram como o incrível e artístico Baruk e ao sem cão Barlu, ao Emilio com um trabalho tão difícil e a Lilly, ao Pedro tão inteligente e divertido, e à melhor wedding planner Tanya super entusiasmada com o projeto; e na Guatemala ter conhecido a Geneve e o Mike e depois os nossos queridos flechas: Susana e Samuel.

5 – Agradecemos ao universo por nos ter guiado pelos melhores caminhos: sem assaltantes, sem pedras para furar os nossos pneus, sem acidentes, sem polícias corruptos. A carrinha avariou sempre em sítios onde foi possível ter ajuda, onde estivemos sempre bem: o Canadian Tire de Aurora deve ser o melhor do país, e desde que entramos no México não tivemos problemas. Por nos ter dito que era melhor comer na carrinha do que ficar com uma intoxicação alimentar. Por nos ter levado para os sítios mais seguros porque mesmo quando ficamos enterrados na areia não podíamos ter ficado em vila mais pacata. E claro que a Duna foi uma ajuda muito importante nisto dos assaltos.

6 – Agradecemos aos noivos que nos deixaram fazer parte dos seus dias especiais. Temos 5 casamentos já. Já viram três, mas o quarto e o quinto estão mesmo aí a chegar em dose dupla.

7 – Agradecemos aos parceiros como a Fuji e a Namortarte que acreditaram em nós e que nos dão apoio, permitindo-nos chegar um bocadinho mais longe. E aos media que nos deram cobertura quando saímos de Portugal e outros  que nos acompanharam quando já tínhamos começado a viagem.

8 – Agradecemos que tudo se tenha alinhado no momento certo para estarmos aqui. E quando regressarmos a Portugal com as contas a zero, a alma vai cheia, o coração a rebentar e a memória a transbordar de histórias para contar.

Obrigada, 2017 foi sem dúvida o ano em que aprendemos a viver, a ouvir-nos, a seguir em frente.

Na estrada pela Guatemala #14

De Tikal tínhamos que seguir para Antigua. sábado era dia de casamento. E já era quinta-feira. Não eram muitos quilómetros, 500. Tínhamos lido umas histórias recentes de estradas bloqueadas. As pessoas bloqueiam as estradas em protesto contra o governo corrupto e pode ficar bloqueada durante horas. Pensamos que devíamos fazer tudo num dia. Pensamos mal.

Existem duas hipóteses de estradas que ligam Tikal à Cidade da Guatemala e consequentemente a Antigua. Uma das hipóteses, apesar de mais curta demora mais tempo. Vemos logo que só pode ser estrada em más condições. Olhamos atentamente para o iOverlander, que já falamos aqui e vemos que tem imensos sinais de exclamação. O que quer dizer perigo, pessoas que foram roubadas, estradas em péssimas condições.
Decidimos ir pela segunda hipótese. É uma estrada recente que o governo fez exatamente para ligar Tikal à Cidade da Guatemala e promover o turismo.
A estrada de apenas uma faixa em mais de 80% do percurso está repleta de camiões, que fazem o mesmo trajeto que nós. Já que também é possível chegar às Honduras. Pelo caminho, pequenas aldeias que vivem mesmo da estrada e das pessoas que param para almoçar, ou comprar qualquer coisa.
Deixamos os topes do México pelas lombas da Guatemala. Menos mas chamam-se “túmulos”. Imaginem, portanto, o tamanho.
É impossível ultrapassar os camiões. Passaram 7 horas e fizemos 300 quilómetros. Saímos ainda não eram 7 da manhã. Paramos para almoçar com esperança de que faltava pouco. Até agora nenhum bloqueio. Fomos parados pela polícia apenas para controlo do passaporte. Vamos por uma estrada com duas faixas finalmente. Comentamos, uau que estrada. E o resto já imaginam. Como dizia uma professora minha “coisa gabada, coisa estragada”. Demoramos mais 4 horas para fazer 12 quilómetros, já era de noite. Tivemos que dormir numa bomba de gasolina e seguir viagem para Antigua já no dia seguinte. Passamos pelo meio da Cidade da Guatemala, a capital do país. E nem, o facto de termos saído às 6 da manhã nos poupou a mais 3 horas para fazer 75 kms.

Compensou Antigua que é mágico. Mas nisso falaremos noutra altura

Na estrada pela fronteira Guatemala #13

Muito lemos sobre as fronteiras, e sabíamos que a América central tinha algumas das piores. Neste caso, ao passar do Belize para a Guatemala demoramos três horas, mas muito por nossa culpa.

Para sair do Belize tivemos que estacionar o carro, carimbar o passaporte, pagar uma taxa de quase 20 dólares por pessoa e dar também saída do carro. Foi fácil, nem quiseram ver o carro. Estava a jogar Portugal, a ganhar 2-0 e eles ficaram tão contentes por sermos portugueses que carimbaram e nem olharam. Mas ficamos com pouco dinheiro, trocamos para Quetzales, moeda oficial da Guatemala, e ficamos com 80, perto de 8 euros. Sabíamos que íamos estar tramados.

Depois passamos só por um guarda e já estamos na Guatemala. Começam logo a correr em direção ao carro uns 10 miúdos. Tivemos que fumigar o carro, uma vez mais. Já explicamos o que isso é aqui. Pagamos e vem logo o veterinário para ver a Duna. Entregamos os papéis, pede-nos cópias. Dizemos que não temos. Fica chateado mas lá cede a scanear ele os documentos, enquanto vamos pagar 25 quetzales. O nosso dinheiro ainda dava. carimbamos o passaporte, e depois passamos para os papéis do carro. Precisamos de cópias. Não temos. Tudo isto enquanto somos seguidos pelo Daniel.

O Daniel não deve ter mais de 12 anos. Diz que nos está a ajudar, que vai connosco tirar cópias. Agradecemos, dizemos que não lhe podemos dar dinheiro nenhum. Ele não desiste. Leva-nos a tirar cópias. Chegamos ao local, não há luz, não podem tirar. Diz que na vila dá. Mas temos que ir a pé, são 20 minutos, não queremos deixar a Duna. Voltamos ao veterinário, ele oferece-se para nos tirar cópias para os papéis do carro e ainda nos dá umas dicas sobre Guatemala. Entretanto o Daniel desaparece. Voltamos ao balcão com as cópias, dão-nos um papel para pagar 160 quetzales. Pronto, já não temos dinheiro. Tentamos pagar com cartão. Não dá. Temos que ir à vila levantar. Perguntamos onde é, explicam-nos. O Daniel aparece como por magia. O Ivo vai levantar o dinheiro, sempre com o Daniel a acompanhar e a contar-nos histórias. Diz que tem 16 anos, idade legal para trabalhar supomos. Que tem que pagar para estar alí e que se não fizer dinheiro nenhum tem que pedir à mãe. Perguntamos quanto pode fazer num dia. Não nos diz, pergunta-nos quanto é que ganhamos nós por dia em Portugal.

O Ivo regressa, e vou eu pagar e buscar os documentos. Uma vez mais seguida do Daniel. Damos-lhe umas moedas do Canadá, tiramos-lhe uma foto com Fujifilm Instax, que lhe oferecemos e ele fica radiante.
Seguimos viagem, o destino é uma vila antes de Tikal. Está-se mesmo a ver que já vamos chegar de noite.