Casamento no Laos

Depois de vos ter escrito este texto tivemos oportunidade de ir a um novo casamento. Desta vez podemos assistir a toda a cerimónia budista e tivemos a honra de até ser convidados para a casa dos noivos, a jantar com a sua família dois dias antes. Conhecemos o noivo no casamento do Dipjoy. Também ele estudou na Finlândia mas mora agora no Laos e trabalha para o governo. Contaram-nos mais sobre os casamentos no Laos e sobre as tradições:

  • Quando um casal decide casar, primeiro o mais importante é meter os papéis pelo lado civil. Só depois do casamento estar aprovado pelo governo é que podem ir morar juntos. Aqui a questão da religião não tem qualquer impacto, há muita gente que por falta de dinheiro nem chega a casar religiosamente e isso não é mal visto pela sociedade. Pelo contrário, se forem viver juntos antes do casamento ser aprovado legalmente podem levar com uma multa que pode ascender aos 5.000€.
  • Se desejarem casar religiosamente, tal como na Tailândia, devem pedir conselho sobre a data a um ancião da aldeia, pode ser um monge ou alguém mais velho a que também chamam de fortune taller. Para isto o ancião analisa os aniversários de ambos e outros aspectos relevantes. Se não estiverem contentes com a data podem consultar outro ancião ou, como foi o caso do Tock e da Tong decidir em família o melhor dia. Como o Tock adora futebol e joga sempre com o número 11, acabou por ser esse o dia escolhido.

  • Aqui como em muitas outras partes do mundo, o noivo paga aos pais da noiva uma soma para poder contrair matrimónio. Mas o casamento é por amor, não é um casamento arranjado.
  • No dia da celebração, é tudo feito em casa. Os noivos, que neste caso já vivem juntos, arranjam-se ao mesmo tempo, sem formalismos e depois o noivo sai de casa e faz uma espécie de parada com os amigos em que dançam e bebem pelo caminho. O noivo leva um ramo de flores, um amigo chegado normalmente o padrinho, leva um guarda-chuva por cima do noivo. Ao chegar à casa os amigos vão pagando  à família e amigos da noiva para o deixarem passar e mesmo à porta estão as crianças que também lhes pedem algo para deixar passar o noivo.

  • Na sala onde se realiza a cerimónia estão os pais e as pessoas mais de idade, a que se junta um ancião que vai rezar pelos noivos. A noiva, que permaneceu no quarto até ao momento, é chamada, linda, com o cabelo preso no topo, as roupas de seda. Começa a cerimónia é durante esta, as pessoas vão falando umas com as outras, riem, etc… só os noivos parecem prestar mais atenção às rezas.
  • Entre as várias tradições há duas que nos chamam mais a atenção: uma em que todos os convidados prendem aos pulsos dos noivos um fio branco, que acreditam trazer boa sorte. Algumas pessoas prendem dinheiro, depois da cerimónia os noivos retiram o dinheiro mas mantém-se os fios que eles não tiram mas sim vão caindo por eles. Se pelo menos um dos fios durar mais de 3 dias a cair os desejos dos noivos tornar-se-ão realidade.

  • A outra tradição é a de os noivos darem dinheiro as pessoas que estão na sala que acreditam que o dinheiro está abençoado e que muitas vezes vão comprar uma lotaria com ele. Esse dinheiro é oferecido como um pedido de desculpa aos mais velhos e da sua benção.

No Laos não existe uma palavra para chamar amigo, ou amiga. Eles tratam os que lhe são próximos por nomes de família. Se for um amigo é chamado de irmão, se for o pai de um grande amigo nosso é nosso pai também. Isto é muito bem visto e um enorme sinal de respeito quando chamamos alguém de pai ou mãe. E é sinal de que percebemos como funciona a sociedade deles. Achamos isto muito curioso e rapidamente compreendemos que está tradição vai muito mais além dos nomes e formas de tratamento, quando na manhã do casamento todos os amigos do Tock estavam envolvidos a montar as mesas e o espaço onde iria ser servido o almoço, enquanto todas as mulheres preparavam a refeição que se serviria.

A realidade é que estávamos fascinados por este povo, tão calmo, e respeituoso pelos mais velhos. Não se vê ninguém gritar, discutir, e estão sempre a dizer-nos para ter calma e aproveitar. Para eles é até mal visto não aproveitarmos a vida, ser um viciado no trabalho. Foi algo que o nosso irmão Tock nos disse quando nos deixou ir ao casamento dele: que éramos convidados e que devíamos aproveitar e dançar.

Depois de todas as cerimónias, rapidamente chegou a parte da festa. O noivo tinha-nos pedido para fazer um same day edit para mostrar aos convidados e mal podemos fomos para o hotel de forma a ter tudo pronto. Chegamos entusiasmados com o vídeo e mostramos ao noivo que ficou radiante e decidiu mostrar logo no início da refeição. Começou o vídeo, deu 10 segundos e alguém mandou parar e os noivos começaram a sua primeira dança.
Não percebemos nada, ninguém nos explicou muito bem o que se passou. Mais tarde, depois de insistirmos com uns amigos que estavam no casamento e que estão por dentro da cultura deste povo, explicaram-nos que o respeito aos mais velhos é algo muito interiorizado. E que esse mais velho pode nem ser da família, pode ser um chefe ou outra pessoa, e que no caso do nosso vídeo foi alguém assim que mandou parar por ter sido feito por ocidentais.

 

Percebemos que este respeito por vezes chega a ser obediência e que pode delimitar a nossa vida. Não pensem que as pessoas não gostaram de nós, muito pelo contrário, os pais dos noivos foram excelentes e fizeram-nos sentir muito bem recebidos. Dançaram connosco, ensinaram-nos a dançar, beberam, tiramos fotos juntos, e até nos abraçaram no final. Sentimos que éramos da família. E foi, sem dúvida, um dia em que sentimos que o propósito desta viagem faz todo o sentido.

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